Lendas da Nossa Senhora da Graça

Lenda da Moura encantada
De facto este é um monte que está rodeado de muitas lendas e de muitos mistérios. Diz uma delas que, numa enevoada manhã de S. João, um pequeno pastor que guardava o gado lá para as bandas dos Palhaços, viu uma enorme e estranha luz que quase o cegava completamente. Primeiro tentou fugir, mas como se a curiosidade fosse maior do que o medo, teve que olhar mais uma vez. Viu então uma linda e rica moura rodeada de tesouros, que o chamava irresistivelmente. - Vem cá! Leva todo o ouro que quiseres, mas não contes a ninguém e sobretudo não olhes para trás! O pequeno pastor assim o fez. Encheu o bornal e a coirada de ouro e partiu correndo pelo monte abaixo. Só que, a meio da descida, qualquer coisa mais forte do que ele o obrigou a olhar para trás e ver uma vez mais aquela luz maravilhosa. Depois de chegar a casa e ter contado o acontecido, abriu o bornal para mostrar o ouro aos familiares, mas o encanto tinha desaparecido: o ouro tinha-se transformado em escórias (rojões de ferro) e ainda hoje se encontram espalhadas pelo monte em grande quantidade, que o pequeno pastor deixou cair na sua corrida desenfreada para casa.


Lenda da Cinínia

Conta uma das lendas ligadas ao Monte que, durante a ocupação da Península Ibérica, no século II antes de Cristo, as legiões romanas comandadas pelo Cônsul Décio Juno Bruto chegaram, durante o Verão, até junto da cidade “Cinínia”, ou “Canínia” da tribo dos Tamecanos, famosa pela produção de ferro com que fabricavam as suas armas. Receando, talvez, a sua resistência, Décio Juno Bruto mandou emissários dizendo que se a cidade entregasse o seu ouro, não seria invadida pelas legiões. Os Tamecanos, do alto do Monte Farinha, onde se situava a famosa cidade responderam: - Os nossos avós não nos deixaram ouro para comprar a avidez de um general romano, mas deixaram-nos ferro com que nos defendêssemos dele. A cidade foi arrasada, mas a resposta ficou na história e na lenda. Esta lenda leva a crer que a primeira construção do Santuário tenha sido feita com as pedras das ruínas da cidade do Monte dos Palhaços. A Cinínia ou Canínia seria hoje a Caínha, lugar que pertence à freguesia de Mondim e que fica aos pés do Monte da Senhora da Graça.

 

Lenda dos pescadores

lenda_pescadoresDiz a lenda que, alguns pescadores que andavam perdidos no mar, teriam avistado no meio do temporal uma capelinha caiada no cocuruto dum monte distante e rezaram pela protecção daquela Senhora. Durante a noite, Nossa Senhora abandonou o seu altar, deixando o ermitão muito preocupado e foi salvar os pescadores. O zeloso guarda da montanha chegou mesmo a pensar que a teriam roubado. Ao outro dia quando voltou à capela, a imagem estava de novo no seu lugar, cheirando a sal e a mar e com o manto repleto de camarinhas. Mais tarde, os marinheiros vieram para agradecer o milagre e para presentearem Nossa Senhora com um barco de madeira, uma redoma de vidro e o ouro de um cordão. Ainda hoje, por devoção, muitos pescadores da nossa costa trazem ofertas a Nossa Senhora da Graça. Ainda hoje se canta:
Nossa Senhora da Graça
Tem uma redoma de vidro bis
Que lhe deu um marinheiro
Que se viu no mar perdido bis


Lenda da Pedra Alta
Diz a lenda que esta pedra se abriu para esconder Nossa Senhora quando era perseguida pelos romanos que queriam matar o Menino Jesus. De acordo com a tradição, quem visita a Senhora da Graça pela primeira vez e vai à Pedra Alta, será enganado pelos amigos que lhe pedem que lá encoste a cabeça para poder ouvir o mar. Depois, com uma pequena pancada obrigam-no a dar uma turra no granito e mesmo que não consiga ouvir o mar ficará a ver as estrelinhas certamente!


Lenda da serpente
Diz a lenda que quando a serpente se enroscar, três vezes, no monte de Nossa Senhora da Graça, o fim do mundo estará para chegar.


Lenda do raio de sol
Numa das vertentes do monte, na zona circundante do menhir da Pedra Alta morou um estranho personagem, conhecido como “O homem das Corujeiras”, a quem eram atribuídos misteriosos poderes. O nosso homem costumava deslocar-se à milenar Igreja de Atei para assistir à Missa dominical. Chegava, despia o capote e atirava com ele para um raio de luz que entrava por uma das frestas do granito. O capote ficava, milagrosamente, suspenso naquele raio de luz esplendoroso.


Lenda do ermitão
Diz a lenda que um ermitão de Nossa Senhora, com aura de santidade, foi assassinado, à traição, junto do menir da Pedra Alta. Está sepultado junto aos degraus da escadaria do santuário e ainda hoje se acendem velas, em sua memória, no local onde foi assassinado.

Nossa Senhora da Graça
Qu’é do vosso ermitão?
No lugar da Pedra Alta,
Lhe fizeram a traição.


Lenda da mina dos mouros
Diz a lenda que na vertente dos Palhaços virada para Vilar de Ferreiros existe a entrada de uma mina que corre oito quilómetros para sair, nas margens do Rio Tâmega, na Ribeira de Pedra Vedra, em frente ao calhau do “Furato”. Segundo a mesma lenda seria por lá que os mouros levariam os cavalos a beber ao rio. A referida mina estará repleta de tesouros, mas para conseguir lá entrar é necessário ler o Livro de São Cipriano ao contrário e picar a cauda da serpente que vela na entrada, com um alfinete de ouro. A serpente transformar-se-á, então, numa princesa encantada que vos dará todos os tesouros e, principalmente, um espectacular bezerro de ouro escondido no interior daquela famosa mina.

Aspectos arqueológicos

Todo o Monte Farinha é um verdadeiro santuário de vestígios arqueológicos.
Estão referenciados os Castros: do Castroeiro, do Pré-murado, da Plaina dos Mouros, dos Palhaços, e dos Palhacinhos; o antiquíssimo caminho em calçada medieval subindo desde o lugar de Campos até ao alto; insculturas rupestres de Campos, Rexeiras e Campelo.
Ilídio Araújo publicou um estudo localizando no alto dos Palhaços a famosa cidade do ferro "Cininia ou Caninia", que ousou fazer frente às legiões romanas de Decio Juno Bruto, quando da conquista da Península Ibérica no século II AC.
Contudo, Mondim Basto nunca foi conhecido arqueologicamente, nem nunca despertou interesse a esse nível, excetuando a incursão de Henrique Botelho que nos finais do séc. XIX, dá conta de dois arqueossítios do concelho ainda hoje por cartografar.

Castro do Crastoeiro na Senhora da Graça

Nesta circunstância, o Castroeiro apenas seria identificado no Verão de 1983, no decorrer dos trabalhos de prospeção de campo realizados no âmbito do Levantamento Arqueológico do concelho, pelo arqueólogo Dr. António Dinis.


Localização
O povoado do Castroeiro situa-se numa pequena elevação e localiza-se no lugar de Campos, na freguesia de Mondim de Basto, muito próximo do limite com a freguesia de Vilar de Ferreiros, no sopé do Monte Farinha.

Acesso
castroQuem pretende subir a Sr.ª da Graça a pé pelo velho caminho dos romeiros, tem ao seu dispor o folheto do percurso pedestre onde está incluída a visita ao Crastoeiro.
Quem pretende subir a Sr.ª da Graça, pela estrada, deve virar à direita na sede do Clube de Parapente. Vai passar por algumas empresas de exploração de granito e logo em baixo aparece a sinalização do Castro.

De salientar o trabalho do arqueólogo A. Pereira Dinis em todo o estudo ligado ao património arqueológico do concelho que assume hoje uma especial importância cultural e um atrativo turístico do concelho. A Câmara Municipal editou em 2005 uma brochura de título "Crastoeiro- Mondim de Basto", que está, desde essa altura, disponível no Posto de Turismo, cujos textos e imagens são do próprio Dr. Dinis.

A brochura
Identificado no âmbito da elaboração da carta arqueológica do concelho, o Crastoeiro foi alvo de escavações entre 1985-1987 (1ª fase) e 1997-1999 (2ª fase). Os trabalhos revelaram diversas estruturas, por vezes sobrepostas, distribuídas por quatro setores distintos que totalizam uma área de 400 m 2.

fossaA ocupação mais antiga situa-se na Idade do Ferro inicial, apontando-se os meados de séc. IV AC, como data provável. Nesta altura, os habitantes do Crastoeiro construíram cabanas, com materiais perecíveis, de planta circular, e cavaram fossas no saibro para conservarem as bolotas recoletadas e os cereais que cultivavam nos socalcos voltados à ribeira de Campos. A produção cerâmica, exclusivamente manual e de uma forma geral lisa, inclui potes e púcaros ou potinhos.
O registo arqueológico mostra que, durante este período, foram desenvolvidas práticas da metalurgia do ferro, atividade que terá contribuído para o acelerado processo de desflorestação do habitat.

gravuras

A descoberta de gravuras rupestres no Crastoeiro mostra que o sítio terá assumido o papel de santuário desenvolvendo-se aí atividades de foro ritual e simbólico.

Por volta do séc. II AC, o povoado transforma-se com a construção de uma imponente muralha, em pedra, demonstrativa de um incremento económico e capacidade organizativa. Embora persista a construção de cabanas, agora revestidas com argamassa de terra e acabamento pintado, começam-se a edificar casas em pedra, de planta circular ou retangular com os cantos arredondados, por vezes com vestíbulos, conservando-se, porém, os pavimentos de argila e as coberturas em materiais vegetais. Mantendo-se a atividade recolectora e as práticas agrícolas, destaca-se também a pastorícia, talvez de gado lanígero, tal como é indiciado pelo espólio relacionado coma fiação. A cerâmica conhece inovações técnicas, pela utilização da roda, e aumenta o número de formas e a percentagem de recipientes decorados. Continua-se a documentar a produção metalúrgica do ferro e talvez se tenha trabalhado o bronze, fazendo-se uso dos recursos minerais locais.

O abandono do Crastoeiro terá ocorrido nos finais de séc. I, quando se processava a romanização do território. Necasa_pedrasta altura as habitações, em pedra, evoluem para plantas tendencialmente retangulares, mas mantêm o conservadorismo das suas coberturas. O espaço envolvente releva a floresta mais rarefeita devido ao desenvolvimento das atividades recolectoras e produtivas. Como nota mais importante salienta-se a maior integração do Crastoeiro na esfera de intercâmbios suprarregionais tal como é sugerido pelo aparecimento de cerâmicas, moedas e contas de vidro de filiação romana. (Dinis, António Pereira, arqueólogo).

moeda1 moeda2


História

Crastoeiro1 Crastoeiro2 Crastoeiro3

O Monte Farinha é uma autêntica revelação de dados históricos e arqueológicos que nos remetem para a sua importância estratégica e religiosa desde os tempos mais recuados.
Embora o primeiro documento escrito que a ele se refira, com o nome atual, estar datado de 1115, sabemos que a ocupação humana nas suas vertentes remonta a milhares de anos antes de Cristo.
Vários castros e sítios fortificados estão aqui referenciados, tendo o Castro do Castroeiro sido objeto de estudo e de escavações ao longo dos últimos anos, escavações dirigidas pelo arqueólogo Dr. António Dinis e que nos vêm surpreendendo com importantes descobertas relacionadas com a Idade do Ferro.
A estação de Campelo é um precioso santuário de gravuras e insculturas rupestres que se tem afirmado como importante referência da denominada arte atlântica peninsular.
pedra_alta A “Pedra Alta”, classificada como menhir por muitos especialistas, pressupõe cultos antiquíssimos relacionados com os celtas. O Investigador Ilídio de Araújo defende que os vestígios arqueológicos dos Palhaços correspondem à localização da famosa cidade de “Canínia”, ou Cinínia” que ganhou notoriedade por ter feito frente aos poderosos exércitos do Cônsul Romano Décio Juno Bruto, feito esse relatado por Valério Máximo no seu “Compendio de Ditos e Feitos Memoráveis”. O mesmo autor relaciona os “pharos” ou “pharusos”, povos das tribos semitas e fenícias, adoradores da rainha “Phary” ou “Pharina”, dos egípcios, como os habitantes que viriam a batizar este ancestral monte de culto.
Outros especialistas defendem que aqui se localizaria o petouto de “Volóbriga”, da tribo celta dos Nemetanos.
Na identificação das paróquias suévicas há investigadores que relacionam a igreja de Palatiaca ou Palantusico com a situação geográfica do Monte Farinha.
A Romaria de São Tiago já referenciada por volta de 1500 estará, provavelmente, relacionada com os caminhos dos peregrinos que demandavam Compostela.


O Santuário

santuario1 santuario2 santuario3

No topo do Monte Farinha eleva-se o Santuário da Senhora da Graça, que é, provavelmente, o terceiro templo de culto a ser construído naquele local. Existem documentos históricos que referem que as obras de reedificação foram autorizadas em 1747 e que já estariam concluídas em 1758, embora exista no seu interior uma pedra lavrada que refere a data de 1775.
É o mais bonito, o mais importante e o mais espetacular Santuário Mariano de todo o Trás-os-Montes. Um lugar de encanto, de eleição e de grande importância religiosa para os habitantes da Região. Este Monte e o seu Santuário são o ex-libris e o cartão de visita de Mondim de Basto.
O monumento é todo de granito da região, de planta composta por torre sineira quadrangular, nave única octogonal e capela-mor e sacristia retangulares, em eixo.
O grupo arquitetónico do Santuário é formado pelo Santuário, sacristia e torre sineira. Junto ao Santuário existe uma casa de artigos religiosos. Nesse mesmo espaço funcionou durante muitos anos uma casa de apoio, com quartos e cozinha onde os romeiros pernoitavam e faziam as suas refeições. Também os mesários e padres utilizavam estas instalações porque era de tradição irem de véspera para as festas. Este espaço era também utilizado para fazer casamentos e para outros eventos de carácter social. Em 1936 foi destruído por um incêndio durante o arraial de Santiago e, mais tarde, reconstruído pelo Comendador Alfredo Álvares de Carvalho Pinto Coelho.
À sua volta existe um adro, um conjunto de muros e escadórios e uma praceta para a celebração de missas campais.
Tem uma residência onde vive o ermitão, zelador de todo o Santuário.
A Irmandade de Nossa Senhora da Graça tem promovido, ao longo dos tempos, profundas obras de recuperação de todo os espaços envolventes ao Santuário.
O Reverendo Padre Manuel Joaquim Correia Guedes foi capelão do Santuário e Presidente da Irmandade de Nossa Senhora da Graça durante mais de 40 anos. 

As Capelas

capela_anunciacaoNa encosta do monte voltada para norte e para a região de Basto há três capelas, simbolizando um calvário, que os fiéis gostam de visitar na subida para o Santuário e às quais chamam de "Passos".
Para quem sobe à montanha sagrada, a primeira capela, conhecida como "a capela do fundo", data de 1889 e é dedicada à natalidade de Jesus, expressa pelo presépio. É chamada a Capela da Natividade.
A segunda, referida como "a do meio", data de 1933 e é dedicada à Visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel. É chamada Capela da Visitação ou Capela do Anjo.
A terceira e última, "a capela de cima", data de 1899 e é dedicada à Anunciação do Anjo a Nossa Senhora. É chamada Capela da Anunciação, mas que o povo batiza de Pai Eterno, em virtude da referida imagem estar figurada com maior relevo.

Beneméritos

Merecem especial lembrança todos os beneméritos do atual Santuário, que o edificaram e que ao longo dos tempos o foram enriquecendo com benfeitorias e acessórios.
Em primeiro lugar os anónimos empreendedores da atual edificação. A maior parte deles, provavelmente, emigrantes regressados do Brasil.
Em 1875 aparece uma referência à construção de uma "Casa Nova" destinada a acolher os romeiros. Esta obra foi acompanhada pelo Pe. Rodrigues de Morais, o mesmo que presidiu à reconstrução do Santuário de 1875 e que mandou construir duas das capelas dos Passos na encosta do Santuário. O torreão dos sinos fora oferta de Augusto Alves Teixeira, de Vilar de Ferreiros.

Há ainda, talvez o mais pródigo de todos os benfeitores, cujo nome permanece na memória do concelho, até por ser um ilustre filho da terra - o Comendador Alfredo Álvares de Carvalho, afilhado da própria Senhora da Graça, que mandou reconstruir os aposentos de romeiros e instalações anexas após um violento incêndio num arraial de S. Tiago. Outra das suas muitas benfeitorias foi a exploração e o aqueduto de transporte das águas para abastecimento público da sua terra natal, que foi entregue à Câmara Municipal em 18/02/1932. Duas das atuais imagens da Nossa Senhora da Graça também foram oferta sua.
Em 1933 por iniciativa da Comissão Administrativa do Santuário, presidida pelo Pe. António Guilherme de Queirós Saavedra, foi construída a terceira capela no caminho de acesso ao monte, vulgarmente conhecida pela «Capela do Fundo».
É de salientar também a obra de restauro presidida pelo Pe. Manuel Joaquim Correia Guedes que, durante a sua presidência da Irmandade, se empenhou nos melhoramentos do Santuário.


O Monte Farinha

Um dos símbolos mais conhecidos do concelho é o Monte Farinha, no topo do qual se ergue o Santuário da Nossa Senhora da Graça a quase 1000 metros de altitude.
"O Monte Farinha e os altos dos Palhaços e dos Palhacinhos são o principal elemento topológico do concelho. Este Monte, também conhecido como Nossa Senhora da Graça, com a sua forma cónica, relaciona-se com quase todo o concelho, sinalizando-o, dado poder ser avistado, praticamente, de toda a região de Basto". (PDM)

hpim1830 hpim7371 sr_graca rios 2